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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Perashat Vayishlach

E enviou Ia'akob mensageiros na sua frente a Essav, seu irmão, à terra de Se'ir, campo de Edom. E ele os ordenou, dizendo: "Assim vocês dirão ao meu senhor, a Essav: Assim disse teu servo Ia'akob: Com Laban eu morei, e me demorei até agora. E eu tive boi e burro, gado e servo e serva, e eu os enviei para pedir ao meu senhor que ache graça aos teus olhos." E voltaram os mensageiros a Ia'akob, dizendo: "Fomos até teu irmão, a Essav, e também ele vem ao teu encontro, e há quatrocentos homens com ele."  E temeu Ia'akob, muito, e sofreu; e dividiu o povo que tinha consigo, o gado, o rebanho e os camelos em dois acampamentos. E disse: "Se vier Essav a um acampamento e o ferir, o segundo acampamento escapará." E disse Ia'akob: "D'us de meu pai Abraham, e D'us de meu pai Itschak, Hashem, que me diz 'Volte à tua terra, à terra onde nasceste, e te farei bem'; eis que sou muito pequeno para todas as bondades e toda a verdade que fizeste com Teu servo, pois com meu cajado atravessei este Jordão, e agora estou dividido em dois acampamentos. Por favor, salve-me da mão de meu irmão, da mão de Essav, pois eu o temo, para que ele não venha e fira a mãe e os filhos. E Tu disseste 'Eu te farei bem, e pus tua semente como a areia do mar, que não será contada por ser muito grande'."
Bereshit 32:4-13

No final da perashá anterior (Perashat Vayetsé), Ia'akob e Laban se despedem, após este ter perseguido nosso patriarca e D'us tê-lo impedido de ferir. Ia'akob possuía razão neste ponto, havia trabalhado e queria agora ter descanso depois de tantos anos de trabalho desumano. Agora, ele se encontrava em uma situação diferente: ele estava a caminho de volta para sua terra natal, a terra de Israel, e teria de lidar com seu irmão, que certamente ainda possuía muito ódio e ressentimento por haver "perdido" as bençãos de sua primogenitura - vale lembrar que Ia'akob comprou dele a primogenitura e tinha direito a ela, porém o motivo do temor de Ia'akob foi que ele enganou seu pai para receber essa benção, se passando por seu irmão, e sabia que D'us poderia cobrar dele por esse erro. Para apaziguar a ira de seu irmão, ele enviou mensageiros e presentes com eles, e procurou se apresentar perante seu irmão como se fosse um simples servo (uma coisa a se notar: a palavra usada para "mensageiros" é a mesma usada para "anjos", e há comentaristas que opinam que Ia'akov teria enviado anjos de verdade, e não mensageiros humanos). Os mensageiros retornam com uma informação nada animadora: seu irmão vinha com um verdadeiro exército ao seu encontro. Por mais que Ia'akob possuísse muitos servos, ele próprio não era dado a combates e muito menos tinha preparado um "exército" como tinha seu avô Abraham, e não teria a menor chance de salvar todo o seu acampamento. Para evitar um possível massacre, ele separou em dois acampamentos, e os manteve a uma boa distância um do outro, porque se Essav e seu exército atacasse um dos acampamentos, o outro teria a possibilidade de escapar. Seu principal temor, como um verdadeiro homem, responsável por sua família, foi pedir que D'us não permitisse que Essav atacasse o acampamento no qual suas esposas e filhos se encontravam - não há nenhuma citação dele rezando pela proteção dos seus bens ou dos objetos de valor. Ele conclui sua reza lembrando da promessa que D'us fizera a seus pais e a ele também, no qual D'us promete que sua descendência seria incontável.
Devemos aprender de Ia'akob sua humildade perante D'us, pois ele assume que não merecia toda a bondade que foi feita com ele, num reconhecimendo claro do atributo de misericórdia de D'us. Muitas vezes, talvez por ignorância ou problemas que vivemos, achamos que D'us tem a obrigação de nos fazer bondades e até milagres. Ia'akov havia recebido a promessa Divina de que sua descendência seria numerosa, e nem por isso deixou sua humildade de lado e exigiu dEle que o salvasse. Que sirva de lição a todos e que possamos ser humildes e reconhecer todas as bondades que Ele nos faz, "por todos os Teus milagres que diariamente Tu fazes conosco, e pelas Tuas maravilhas e Tuas bondades que fazes a todo tempo" (trecho da Amidá).

Nota: judeus do Marrocos (e alguns outros sefaradim) tem o costume de ler este trecho sempre logo após haver feito toda a havdalá. O costume de recitar esta porção vem por ser considerada uma segulá para proteção e benção para a semana que se inicia.

Perashat Vayetse

E saiu Ia'akob de Beer Sheba e foi a Charán. E chegou ao lugar e pernoitou lá, pois o sol havia se posto, e tomou das pedras do local e as colocou como cabeceira; e deitou-se naquele lugar. E sonhou e eis que uma escada estava posta em direção da terra e sua ponta (cabeça) alcançava até os céus; e eis que os anjos de D'us subiam e desciam nela. E eis que Hashem estava posto acima dela, e disse: "Eu sou Hashem, D'us de Abraham teu pai, e o D'us de Itschak; a terra sobre a qual tu estás deitado, a ti Eu a darei e à tua semente. E tua semente será como o pó da terra, e te estenderás ao mar, ao oriente, ao norte e ao Negeb; e em ti serão benditas todas as famílias da terra, e em tua semente. E eis que Eu estarei contigo e te guardarei em todo lugar que fores, e Eu te trarei a esta terra, pois Eu não te abandonarei mesmo depois de ter te feito o que Eu te falei." E terminou Ia'akob seu sono e disse: "Certamente Hashem está neste lugar, e Eu não sabia." E viu e disse "Quão temível é este lugar! Aqui não é outra coisa senão a Casa de D'us, e este é o Portão dos Céus." E levantou Ia'akob pela manhã e tomou a pedra que pôs como cabeceira e fez dela um altar e verteu azeite sobre sua ponta (cabeça). E chamou o nome do local de Bet El, e Luz era o primeiro nome da cidade. E Ia'akob jurou um juramento dizendo: "Se D'us estiver comigo e me guardar neste caminho que estou caminhando, e me der pão para comer e roupa para vestir, e me trouxer em paz à casa de meu pai, e se for Hashem para mim por D'us, esta pedra que pus por altar será por 'casa de D'us', e tudo o que Tu me deres, dizimarei para Ti."
Bereshit 28:10 - 28:22

No final da perashá anterior (Perashat Toldot), Ia'akob foi enviado por seu pai Itschak a Padan Aram, à casa de seu cunhado Laban, para tomar de lá uma esposa, com a recomendação expressa de não tomar esposa do meio das mulheres canaanitas. Agora ele, na sua ida em busca de uma esposa digna e também fugindo da fúria de seu irmão, chega até o Monte Moriá (Monte do Templo), e ali ele procura descansar. Em Berachot 26b, os Sábios dizem que "vayifgá bamakom" (e chegou ao lugar) deve ser entendido como "e rezou no lugar", baseando-se na linguagem aplicada também pelo profeta Irmeiá (Jeremias 7:16) "veal tifgá bi" (e não reze para mim) - eles seguem explicando que aqui Ia'akob estabeleceu a reza de arbit. Quando ele foi dormir, ele pegou das pedras do lugar para por de cabeceira, e as pôs de forma a circular a sua cabeça porque temia algum ataque de animais selvagens.
Vemos também que aqui há uma segunda aparição do conceito de dízimo, que aparece pela primeira vez quando Abraham dá a Malki Tsedek um décimo do que tinha. O mandamento de dízimo (ma'asser) vem a nos lembrar que somos apenas donos temporários do que "possuímos", que é uma dádiva do Alto que deve ser usado para o nosso sustento e cumprir mandamentos. Bom lembrar que o mandamento de ma'asser é referente a tirar a décima parte dos frutos, animais e cereais, e não era pago em dinheiro de forma alguma - o que se poderia fazer em determinadas circunstâncias era vender o animal/vegetal a ser levado como ma'asser, pegar o dinheiro e comprar em Jerusalém para oferecer no Bet Hamikdash. Hoje em dia, como não há Templo de pé e os sacerdotes (kohanim) estão impuros para receber o ma'asser, faz-se um "pidyon", no qual separamos a parte a ser tida como ma'asser e a "redimimos" com o valor de uma moeda, que não deverá ser usada de forma alguma - a mitsvá de ma'asser (dízimo) e terumá (oferenda) de vegetais se aplica apenas a produtos da terra de Israel.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Perashat Toldot

E esta é a história de Itschak, filho de Abraham; Abraham gerou a Itschak. E Itschak tinha 40 anos ao tomar Ribká, filha de Betuel, o arameu de Padan Aram; irmã de Laban, o arameu, tomou para si por mulher. E pediu Itschak a D'us em favor de sua mulher, porque ela era estéril; e o Eterno se compadeceu dele, e concebeu Ribká sua mulher. E conflitaram os filhos no interior dela. E ela disse "Se for assim, pra quê eu vivo?" E foi consultar o Eterno. E disse o Eterno a ela "Há dois povos no teu ventre, e duas nações do teu interior se separarão; e uma nação se sobrepujará sobre outra nação, e o maior servirá ao menor." E se completaram os seus dias de parir, e eis que havia gêmeos em seu ventre. E saiu o primeiro, o avermelhado. Ele todo era coberto de pelos; e foi chamado seu nome Essav. E depois disso saiu seu irmão; e sua mão segurava no calcanhar de Essav. E chamou seu nome de Ia'akob; e Itschak tinha 60 anos quando eles nascerem. E cresceram os jovens, e Essav era um homem que sabia caçar, homem de campo; e Ia'akob era um homem puro, que se assentava em tendas. E amou Itschak a Essav, pois tinha a caça em sua boca; e Ribká amava a Ia'akob. E cozinhava Ia'akob um cozido; e vinha Essav do campo, e estava cansado. E disse Essav a Ia'akob "Me alimente por favor com esta coisa avermelhada, pois estou cansado"; e por isso foi seu nome chamado de Edom (avermelhado). E disse Ia'akob "Me venda, claro como um dia, tua primogenitura." E disse Essav "Eis que estou a caminho de morrer; para quê me serve a primogenitura?" E disse Ia'akob "Me jure, claro como o dia!" E (Essav) lhe jurou; e vendeu sua primogenitura a Ia'akob. E Ia'akob deu a Essav pão e cozido de lentilhas. E (Essav) comeu, se saciou, se levantou e se foi; e desprezou Essav sua primogenitura. E houve fome na terra, além da primeira fome que houve nos dias de Abraham; e foi Itschak a Abimelech, rei dos filisteus, a caminho de Guerar. E apareceu a ele o Eterno, e disse "Não desça até o Egito; habite na terra que Eu te disser. Habite nesta terra e Eu estarei contigo; pois a ti e a tua descendência Eu darei todas estas terras, e erguerei Meu juramento que Eu jurei a Abraham teu pai. E aumentarei a tua semente como as estrelas do céu, e dei à tua semente todas estas terras; e serão benditas em tua semente todos os povos da terra. Pois Abraham ouviu Minha voz; e guardou Minha ordem, Meus mandamentos, Minhas leis e Meus ensinamentos."
Bereshit 25:19 - 26:5

Depois da morte de Abraham no final da perashá passada (Chayê Sará), a Torá passa a contar a história de Itschak. É a única perashá dedicada a contar sua história. Assim como Sará anteriormente, Ribká era estéril, e não podia gerar filhos. D'us atendeu o pedido de Itschak e tornou sua mulher fértil. Quando engravidou, seus filhos conflitavam, o que levou Ribká a ficar preocupada com o futuro de seus filhos - afinal, se já brigavam desde aquele momento, como seria posteriormente? E não só isso: a briga se dava sempre que se passava por determinados locais. Se ela passasse próximo a um local de idolatria, Essav brigava, querendo se ater a estes locais; e sempre que ela passava por um local de estudo da lei Divina, Ia'akob era quem lutava e procurava se aproximar. Por causa disso, ela foi até Shem - que ainda estava vivo naqueles dias - e pediu a ele que fosse consultar o Eterno. D'us a esclareceu de que duas forças opostas estavam dentro dela, personificados em seus filhos; dois grandes potenciais que dirigiriam o futuro da Humanidade. D'us esclarece que Essav e Ia'akob também não poderão estar ambos juntos como cabeça: enquanto um estiver dominando, o outro estará por baixo - porém, no final, "o maior servirá ao menor", indicando claramente como seria o fim dessa disputa.
Há ainda uma coisa interessante a ser dita: apesar de Essav ter influência voltada para a idolatria e Ia'akob para o serviço Divino, ambos nasceram puros e nenhum estaria sem liberdade de escolha para tomar o caminho que desejasse. A palavra "gêmeos" em hebraico se escreve "תאומים" (teomim); entretanto a Torá escreveu esta palavra sem a letra alef, escrevendo "תומים" (tomim), que também pode ser lido como "puros". A Torá neste ponto aparenta dizer "Eles nasceram com seus potenciais e influências, porém cada um teve a liberdade de escolha, a ponto de os gêmeos terem nascido puros, sem qualquer sujeira ou incapacidade de escolha".
Apesar da liberdade de escolha, Essav se deixou levar pela má inclinação e passou a tomar atitudes impróprias conforme foi crescendo e se tornando adulto. Itschak, apesar dos erros de Essav, o amava muito e de certa forma o tinha como o filho preferido. Uma possível explicação do motivo pelo qual Itschak o preferia era porque "tinha a caça em sua boca" - um comentarista afirma que isto significa que Essav "caçava" (enganava) com palavras dizendo coisas agradáveis a seu pai, aparentando ser uma pessoa piedosa, chegando inclusive ao ponto de perguntar como deveria dizimar o sal (algo que definitivamente não é requerido dizimar).
Logo em seguida a contar isto, a Torá passa a contar sobre a venda da primogenitura. Ia'akob era estudante de Torá e sabia que Essav faria um péssimo uso da primogenitura, e então a quis para si, para poder usá-la no serviço Divino. A oportunidade lhe fora dada por D'us durante o período de luto pela morte de Abraham. Essav não respeitou o luto e saiu para caçar como de costume, e ao voltar encontrou Ia'akob cozinhando um cozido de lentilhas, um prato comum para o período de luto. Ele voltara cansado do campo, e estava faminto. Ia'akob, procurando verificar se o irmão se importava com a primogenitura, decide lhe pedir para vendê-la em troca da sopa de lentilhas que vendia, o que Essav concorda sem nem mesmo pensar. Essav não estava em situação de morte iminente - estava apenas cansado -, mas tinha tanto desprezo que aceitou vender por uma comida que se come quando se está de luto! E o seu desprezo fica ainda mais evidente quando atentamos à forma que Essav falou da comida: "esta coisa avermelhada". Ou seja, sequer se importou em saber o que iria comer, se era uma comida boa ou ruim, simplesmente vendeu sua primogenitura por algo que sequer sabia o que era. Com a venda efetuada e confirmada por juramento, Ia'akob serviu ao irmão também pão para comer e saciar sua fome apropriadamente. E assim que seu irmão terminou de comer, ele se levantou e foi embora, e nunca o procurou para tentar reaver sua primogenitura.
Logo em seguida D'us mandou uma nova fome na região da Terra de Israel, o que forçou Itschak a sair da região onde morava. Ele foi até a região costeira, onde os filisteus moravam, e ali se estabeleceu. D'us o impediu de seguir adiante até o Egito, pois não era seu papel, e a fome logo cessaria. Chegando no local, D'us o afirma que ergueria Seu juramento porque Abraham guardou "Minha ordem, Meus mandamentos, Minhas leis e Meus ensinamentos". "Minha ordem" (mishmarti) se refere às ordens dadas para impedir a violação de um mandamento da Torá; "Meus mandamentos" se refere aos mandamentos que possuem explicação na Torá; "Minhas leis" se refere aos mandamentos que não possuem nenhuma explicação lógica (como a proibição de misturar lã e linho); e "Meus ensinamentos" (torotai) se refere tanto aos ensinamentos éticos e morais como também às duas Torás que existem -  a Torá Escrita e a Torá Oral. Com essa explicação, D'us passou a mensagem de que guardará o povo judeu futuramente se seguir o exemplo do nosso pai Abraham, guardando "Minha ordem, Meus mandamentos, Minhas leis e Meus ensinamentos".

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Perashat Chayê Sará

Em mérito de Ana Paula Martins, que tenha um bom parto.
Em mérito de Ketilene de Oliveira, que tenha pronta recuperação.
Que D'us ajude o povo judeu durante esses atentados de incêndios.

E foi a duração da vida de Sará cem anos, e vinte anos e sete anos; estes foram os anos da vida de Sará. E morreu Sará em Kiryat Arbá - que é Chevron -, na terra de Kenaan; e veio Abraham lamentar por Sará e chorar sua morte. E se ergueu Abraham da frente de sua morta, e falou aos filhos de Chet dizendo: "Estrangeiro e habitante sou com vocês; me deem uma porção de túmulo, e enterrarei minha morta de diante de mim." E responderam os filhos de Chet a Abraham, dizendo-lhe: "Escute-nos, meu senhor, pois príncipe de D'us tu és dentro de nós, no que escolheres dentre os nossos túmulos enterre tua morta; nenhum de nós não se deterá em te dar o seu túmulo para que enterres tua morta." E se ergueu Abraham e se cumprimentaram, ao povo da terra, aos filhos de Chet. E falou com eles dizendo: "Se vocês têm vontade que seja enterrada minha morta de diante de mim, me ouçam, e peçam para mim com Efron ben Tsochar. E ele me dará a caverna múltipla (me'arat hamachpelá) que ele tem na extremidade do seu campo; por seu valor completo ele me será dada por porção de túmulo." E Efron havia se assentado entre os filhos de Chet; e respondeu Efron, o hitita, a Abraham, aos ouvidos dos filhos de Chet e a todos os que vieram ao portão de sua cidade, dizendo: "Não, meu senhor. Me ouça! O campo eu te dei, e a caverna que há nele te dei; aos olhos dos filhos de meu povo te dei, enterre tua morta." E o cumprimentou Abraham diante do povo da terra. E disse a Efron, aos ouvidos do povo da terra, dizendo: "Então, se tu, por favor, me ouvir; te dei a prata pelo campo, tome de mim e enterrarei minha morta lá." E respondeu Efron a Abraham dizendo-lhe: "Meu senhor, me escute. A terra vale 400 siclos de prata. O que é isto entre mim e ti? Enterre tua morta." E escutou Abraham a Efron, e pesou Abraham para Efron a prata que ele disse aos ouvidos dos filhos de Chet; 400 siclos de prata em moeda corrente.
Bereshit 23:1-16

Sará veio a falecer quando ficou sabendo do evento da Akedat Itschak, no final da perashá anterior (Vayerá). Quando a Torá começa a abordar a idade de Sará, faz uma coisa bem incomum; separa a idade dela em três etapas. Segundo Rashi, aos 100 anos ela tinha vigor de 20 anos para resistir ao pecado, e aos 20 anos ela tinha a beleza como uma criança de 7 anos. Todos os seus anos de vida foram dedicados na prática do bem.
Sará faleceu e foi enterrada em Kiryat Arbá (Chevron), uma cidade ao sul de Jerusalém. Existem duas explicações para o nome da cidade: a primeira afirma que é chamada assim porque quatro gigantes viveram aí (Achiman, Shashi, Talmai e o pai deles), enquanto que a segunda opinião afirma que o nome da cidade foi uma profecia sobre os quatro casais que seriam enterrados aí (Adam e Chavá, Abraham e Sará, Yitschak e Ribká, Ya'akob e Leá). Vale notar: na parte que fala que Abraham chora a sua morte, a letra "kaf" aparece diminuída na Torá. Segundo Ba'al Haturim, o motivo é que Abraham lamentou sua morte de forma a não externar muito, como um sofrimento mais interno, e logo se apressou em procurar dar um enterro digo à sua esposa.
Logo em seguida, Abraham passa a procurar um local digno do enterro de sua esposa. Ele fala com humildade perante os moradores de Kiryat Arbá, se declarando nada mais que um estrangeiro que veio de longe se estabelecer no meio deles. Entretanto, Abraham era um profeta e mestre dos ensinamentos sobre D'us e o monoteísmo, a tal ponto que vemos o povo responder que ele era príncipe de D'us. Segue-se toda uma discussão às aversas: ele queria pagar pela porção da terra e o povo não queria aceitar o dinheiro, queria presenteá-lo. Por fim, ele escolheu a caverna múltipla - em hebraico, Me'arat Hamachpelá -, que ficava no terreno de Efron. Nova discussão nos mesmos moldes se segue, até que Efron cede e Abraham lhe paga o valor do terreno. Vale notar que foi pago não apenas em prata, cujo valor é variável e alguém poderia aceitar a prata de Efron como se valesse menos do que seu valor real, mas "em moeda corrente", ou seja, no valor que ele poderia realmente ter um maior benefício. Assim vemos que Abraham não se preocupava em pagar simplesmente sua compra, mas se preocupou até mesmo que Efron tivesse um bom proveito do dinheiro proveniente da venda.

domingo, 13 de novembro de 2016

Perashat Vayerá


Em mérito de Ana Paula Martins, que tenha um bom parto, be'ezrat Hashem
E o Eterno se mostrou a ele em Eloné Mamré, enquanto ele estava sentado à porta da tenda, estando quente o dia. E ergueu seus olhos e eis que três homens se dispunham em sua direção; e viu e correu em sua direção, desde a porta da tenda, e se detiveram em direção da terra. E disse "Meus senhores, se achei graça aos olhos de vocês, não passem para além do servo de vocês. Tomem um pouco de água e lavem seus pés; e nos assentemos sob a árvore. E buscarei pão amassado e vocês alimentarão seus corações, e depois vocês passarão; porquanto vocês passaram pelo servo de vocês." E lhe disseram: "Sim, faça conforme você disse." E se apressou Abraham em direção da tenda, até Sará; e disse: "Se apresse! Tome três medidas de farinha de trigo, prepare e faça bolos." E Abraham correu à vaca, e tomou um bezerro puro e bom, e deu ao jovem, e se apressou em fazê-lo (abater e preparar). E pegou a manteiga, o leite e o novilho que preparou, e pôs diante deles; ele se pôs de pé diante deles sob a árvore, enquanto comiam. E disseram a ele: "Onde está Sará, a tua esposa?" E ele respondeu: "Está aqui, na tenda." Então eles lhe disseram: "Eu voltarei a ti por volta desta época, e eis que haverá um filho para Sará, tua esposa." E Sará estava ouvindo desde a porta da tenda, estando ele por detrás. E Abraham e Sará eram idosos, entrados em dias, e a Sará já havia cessado o costume como das mulheres. E riu Sará consigo mesma dizendo (pensando): "Depois de eu estar envelhecida teria eu este prazer, e estando meu senhor já idoso?" E disse o Eterno a Abraham: "Por quê isto, que Sará riu dizendo 'Como poderei eu gerar filho, estando eu idosa'? O Eterno se espantaria com algo? Por volta desta época Eu voltarei a ti, como agora, e Sará terá um filho!"
Bereshit 12:1-14

Alguns versos antes, no final da perashá anterior (Lech Lechá), Abraham havia terminado de fazer a circuncisão em si e em todos da sua casa, conforme D'us ordenara. Agora, três dias depois (quando há o auge da dor da circuncisão), ele estava à porta da sua tenda esperando por visitantes e viajantes: seu prazer era receber convidados e dar um excelente tratamento e descanso, para que estes pudessem seguir viagem. Por cumprir com tanto esmero a mitsvá de hachnassat orchim (recebimento de convidados), D'us enviou seus anjos na forma de viajantes, e desta forma lhe informou quando especificamente teria o filho prometido. Se verificarmos a forma com a qual Abraham recebe os visitantes, vemos o nível  de esmero, a ponto de praticamente implorar que estes lhe dessem a honra de comer em sua tenda! Sará também tinha esta dedicação, de forma que correu para preparar os bolos, conforme o pedido de seu marido. A primeira coisa que os convidados fazem logo depois de comer é perguntar por Sará para lhe dar a notícia - eles poderiam dizer a Abraham que este teria um filho; entretanto, perguntaram por Sará para dizer que ela teria um filho, e um dos motivos é que ela permitiu que seu marido tivesse um filho por meio de outra mulher (quem é mulher sabe o nível de abnegação que isto exige). Esta é uma das formas que podemos ver um dos conceitos do judaísmo, de que a mulher é espiritualmente mais elevada do que o homem por natureza; e poderíamos parafrasear: "Nossos patriarcas são santidade, e nossas matriarcas, santidade de santidades".
Há ainda uma coisa que passaria desapercebido, não fosse eu já ter escutado sobre isso: quando Abraham serviu seus convidados, ele primeiro serviu os alimentos lácteos para só depois servir os alimentos de carne. Há quem argumente que este seja a base da halachá no que concerne a ingestão de carne e leite: primeiro se ingere alimentos de leite, e logo depois de limpar a boca se come alimentos de carne (alguns acostumaram a aguardar um intervalo de tempo entre a ingestão de lácteos e a ingestão de carne). Entretanto, se a pessoa ingere alimentos de carne, ela deve esperar um mínimo de seis horas até a ingestão de alimentos lácteos novamente (no entando há comunidades que se acostumaram a esperar um intervalo menor de tempo; porém este não é o costume da maioria e sequer é recomendado que sigam tal costume).
Na perashá anterior vimos que Abraham riu quando D'us lhe prometeu um filho, e aqui vemos que Sará também riu quando D'us repetiu a promessa. E o nome da criança deveria ser Yitschak ("ele rirá", em hebraico). Como Abraham e Sará riram ao escutarem a promessa, de certa forma D'us então se rirá ao cumpri-la - "quem ri por último, ri melhor".

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Perashat Lech Lechá

Em mérito de Ana Paula Martins, que tenha um bom parto, be'ezrat Hashem.

E disse Hashem a Avram: parta de tua terra, de onde nasceste e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. E Eu te farei como uma grande nação, e te abençoarei, e engrandecerei teu nome; e serás benção. E Eu abençoarei aos que te abençoarem, e os que te amaldiçoarem Eu tornarei maldito; e serão abençoadas em ti todas as famílias da terra. E foi-se Avram conforme lhe disse Hashem, e com ele se foi Lot; e Avram tinha 75 anos de idade ao partir de Charan. E tomou Avram a Sarai sua esposa, e a Lot seu sobrinho, e toda a propriedade que tinham, e a alma que fizeram em Charan; e saíram caminhando em direção da terra de Canaan, e vieram à terra de Canaan. E passou Avram na terra até o local de Shechem, até Elon Moré; o canaanita estava então na terra. E apareceu Hashem a Avram e disse "À tua semente darei esta terra"; e construiu alí um altar, ao Eterno que lhe apareceu. E estendeu desde ali até o monte, a leste de Bet El, e armou sua tenda; Bet El ao ocidente e 'Ái ao oriente. E construiu ali um altar ao Eterno, e o chamou em Nome do Eterno. E viajou Avram indo e viajando até o Negev.
Bereshit 12:1-9

Ao final da perashá passada (Noach), é lido sobre o começo da história de Abraham. Ele saiu de Ur Kasdim e se estabeleceu em Charan junto com seu pai e toda a sua família. Houve toda uma situação contada pelos nossos Sábios sobre o motivo de sua saída de sua terra natal, já que Abraham (ainda chamado de Abram) se rebelou contra a idolatria. Seu pai Terach e toda sua família saíram para evitar alguma eventual vingança da parte de Nimrod (já que ele mesmo se declarava um deus), e se estabeleceram em Charan, planejando viver ali definitivamente. Só que por seu grande mérito de descobrir sozinho que há um D'us que tudo governa, Ele o chamou para habitar na terra sagrada e estabelecer ali sua descendência para que fossem os expositores do monoteísmo à Humanidade. É neste momento, aos 75 anos de idade, que Abram é ordenado por D'us para ir a uma terra que para ele era desconhecida e lá se estabelecer. Segundo o comentarista Or Hachaim, D'us propositadamente não lhe explicou sobre como eram as condições da terra onde ele se estabeleceria, para verificar se ele cumpriria com Sua ordem da mesma forma como normalmente um ser humano cumpre a ordem de um rei mortal. Essa confiança que Abram tinha em D'us - apesar de Ele estar invisível aos olhos físicos - que o tornou diferente de todas as pessoas ao redor, e serve de exemplo para nós até hoje - Or Hachaim continua explicando que este foi o teste supremo pelo qual ele passou. Entretanto, há quem opine que o destino não era tão desconhecido assim, já que a gematria composta (nome de cada letra) da palavra "que te mostrarei" (אראך) em hebraico tem o mesmo valor da gematria simples de "terra de Israel" (ארץ ישראל), que é 832.
Ao chegar em seu destino, D'us se revela novamente a Abram e lhe promete: "À tua semente darei esta terra". O que nos resta uma questão: quem deveria herdar a terra de Israel, já que Abraham teria dois filhos? D'us diz a Avraham na disputa que teve com Sará por causa de Ishmael "pois Itschak será para ti descendência" (Bereshit 21:12). Segundo o Zohar, o mérito que permite à descendência de Abraham viver na terra de Israel é o sangue da berit milá (circuncisão) - a importância chega a um ponto no qual o anjo de Ishmael reinvidica a terra aos ishmaelitas, já que eles também tiram sangue em uma circuncisão, mas D'us permite que eles vivam somente enquanto a terra estiver vazia de seus verdadeiros donos assim como a circuncisão que eles fazem é "vazia" (incompleta, ou seja, compõe de apenas uma das três etapas de uma circuncisão válida pela Torá), e eles deveriam ceder assim que o exílio de Israel terminasse.
Bet El à esquerda (sul) e Shechem à direita (norte).
A cidade de Ái ficava cerca de 5,5km a leste de Bet El,
enquanto que Elon Moré fica a cerca de 6,5km de Shechem.
Como forma de obedecer a D'us e habitar na terra de Israel, Abraham fixou suas tendas em uma área grande, que se estendia desde a região próxima a Bet El e se extendendo até a região de Ái, ao longo de uma extensão de aproximadamente seis quilômetros, provavelmente por conta do grande número de servos e gados que Abraham possuía. Este foi o começo do assentamento do povo judeu na terra de Israel -  que D'us possa prontamente trazer todo o povo judeu de volta à terra de nossos antepassados.

domingo, 6 de novembro de 2016

Perashat Noach

Estas são as gerações de Noach. Noach era um honem justo, puro nas gerações dele; com D'us caminhou Noach. E gerou Noach três filhos: a Shem, a Cham e a Yêfet. E estava desolada a terra diante de D'us, e se encheu a terra de violência. E viu D'us a terra, e eis que estava desolada, pois toda carne desolou seu caminho sobre a terra.
Bereshit 6:9-12


Durante a geração do Dilúvio, toda a terra estava cheia de pessoas que eram completamente perversas, cheias de pessoas que não praticavam o bem a absolutamente ninguém. No final da perashá passada (Bereshit) vemos que o estado em que se encontrava a Humanidade foi causado pela corrupção dos líderes da época: a Torá explicita que os juízes (filhos de D'us, em tradução literal) se corromperam com "as filhas dos homens", e estes tomaram de todas as mulheres que lhes dava vontade (incluindo as que já eram casadas). A corrupção era generalizada, e aparentemente a Humanidade não tinha mais conserto.
Aí aparece Noach...
Existem duas opiniões sobre ele. Uma de que ele era de fato um grande justo. Mas há uma outra, mais intrigante: Noach só teria sido considerado justo porque foi considerado entre as pessoas com as quais vivia em sua geração. A Torá diz "Noach era um homem justo, puro nas gerações dele". Rashi e outros comentaristas explicitam que Noach é tido como puro porque D'us viu que nenhum de seus descendentes seria capaz de ser totalmente perverso, o que nos indica que todos teriam uma chance de fazer teshuvá - coisa que os outros descendentes de Adam não tinham mais por terem se afundado demais em violência e transgressões. De todas as pessoas que ouvimos na História, todas elas tinham alguma coisa boa, algum lado bom por menor que fosse - até mesmo os malditos Haman e Hitler (que seus nomes sejam apagados e esquecidos) tinham alguma bondade, ainda que apenas com as pessoas da sua família ou "raça" - o que lhes permitia a possibilidade de teshuvá. O maior ensinamento do Mabul não é que D'us pune os perversos, mas que todos tem algum lado bom (por menor que seja) e que todos tem portanto a possibilidade de arrependimento e de se recuperar de suas ações.

Perashat Bereshit

No princípio, ao criar D'us os céus e a terra, a terra era disforme e vazia, e o sopro de D'us pairava sobre as águas. E disse D'us: Haja luz! E houve luz. E viu D'us a luz, e eis que é boa; e separou D'us entre a luz e a escuridão. E chamou D'us à luz "dia", e à escuridão "noite"; e foi entardecer, e foi amanhecer, um dia.
Bereshit 1:1-5

Estas são as primeiras palavras ditas pela Torá, o livro que entrou para a História como a base do monoteísmo e da ética, e é o fundamento de toda a vida do povo judeu. Como o foco da Torá são as leis que devem ser seguidas para uma interação hamoniosa entre os seres humanos e entre o ser humano e D'us, por quê a Torá inicia com o relato da Criação? Rabi Yitschak questiona o por quê de a Torá não começar com o primeiro mandamento que o povo judeu recebeu, que foi o da contagem dos meses, e logo em seguida dá a resposta: quando as nações do mundo disserem aos judeus que somos ladrões por termos expulsado os povos que aqui viviam, devemos ter a resposta de que D'us fez toda a Terra e o que nela há, e Ele decidiu dar esta terra a quem lhe aprouve. Em uma das aulas que tive aqui na yeshivá com o rav Rotenberg, ele explicou que essa resposta não é necessariamente para ser dada às nações do mundo, haja visto que é sabido de antemão que não escutariam, mas que para soubéssemos nós mesmos que não fomos ladrões, e sim que recebemos do Criador esta terra como herança. Não surpreedentemente, os movimentos dentro do Estado de Israel que advocam a alegação de que os israelenses roubam terras dos árabes são justamente os grupos que mais se afastaram do estudo da Torá. Ai de nós!
O comentarista Ba'al Haturim nota que a expressão "no princípio" (בראשית), em hebraico tem as iniciais da frase "No começo D'us viu que Israel aceitaria a Torá" (בראשונה ראה אלקים שיקבלו ישראל תורה). Desde o começo da Criação D'us já visava a criação do povo judeu e revelar a Sua Torá. Ela é o guia de como as criaturas devem se portar e como alcançarem seus verdadeiros potenciais, revelando cada um a seu modo a Presença Divina. Há um Midrash que diz que D'us consultou todas as nações do mundo se desejavam aceitar um mandamento da Torá, mas todos recusaram e apenas o povo judeu se mostrou disposto a aceitar e cumpri-la.